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Uma Casa do Futuro para Todos
In Público - 26 de Janeiro de 2004Rita Hasse Ferreira
A Casa do Futuro Interactiva vai tornar-se acessível: esta "exposição permanente" do Museu das Comunicações, em Lisboa, vai sofrer alterações e actualizações tecnológicas de forma a ficar apta para pessoas com necessidades especiais. O objectivo principal é sensibilizar os visitantes para a realidade dos cidadãos idosos, portadores de deficiência ou mesmo temporariamente doentes. A nova Casa do Futuro Acessível será inaugurada no próximo dia 17 de Maio, o Dia Mundial das Telecomunicações.
Tal como existe hoje, a Casa do Futuro Interactiva nasceu há cerca de um ano por iniciativa da Fundação Portuguesa das Comunicações (FPC) e da TV Cabo, envolvendo já mais de 40 parceiros. É uma casa - com sala, cozinha, quartos e casa-de-banho - instalada dentro do museu, com inúmeras soluções de automação doméstica mas também de comunicações e entretenimento, incluindo uma caixa do correio "inteligente", televisão interactiva, electrodomésticos "inteligentes", um aspirador-robô, um Aibo (o canino robótico da Sony) e até um jardim virtual interactivo.
Para além da acessibilidade, ainda que relacionado com esta, a Casa deverá contar agora com outro grande "upgrade": a introdução de comandos por voz nos vários equipamentos. "A concretização vai depender da resposta dos nossos parceiros", adiantou a Computadores Álvaro Peixoto, administrador da TV Cabo Interactiva. A integração através da utilização de comandos universais está igualmente prevista - para acabar com a miríade de controlos remotos que existem para os diferentes aparelhos.
Ainda neste ano, os visitantes deverão poder contar também com aplicações de realidade virtual. A Associação para o Desenvolvimento das Telecomunicações e Técnicas de Informática (Adetti), centro de investigação associado do ISCTE com uma linha de investigação em multimédia e ambientes virtuais, é um dos parceiros nesta área. Mas o projecto Casa do Futuro está, em permanência, aberto a outras entidades e empresas interessadas em participar.
O projecto de acessibilidade da Casa passa sobretudo por dois grandes acréscimos: o novo quarto dos avós e as modificações que serão efectuadas no quarto do jovem. Mas também haverá novidades noutras zonas. Inicialmente, a ideia era apenas criar um "quarto da avó" mas Clara Cidade, responsável pelo projecto, considerou que "não fazia sentido um quarto 'acessível' numa casa 'não acessível'". A directora do gabinete para clientes com necessidades especiais da PT Comunicações nunca tinha estado na Casa e foi "apanhada neste processo com este convite". Para Gonçalo Areia, presidente da FPC, Clara Cidade traz à Casa "um serviço de grande nobreza social".
O objectivo é aproveitar a função educativa da Casa do Futuro no sentido de sensibilizar os visitantes "para a realidade das pessoas com necessidades especiais", considera a responsável. São várias as soluções de acessibilidade a serem instaladas mas a primeira alteração a concretizar será a eliminação dos degraus que dão acesso ao quarto do casal, substituídos por uma rampa. As barreiras arquitectónicas deste género são, infelizmente, muito comuns - e reveladoras das chamadas barreiras intelectuais, como observa Clara Cidade, uma vez que se trata de algo simples que podia estar previsto desde o início.
Assim, no quarto do jovem está prevista a instalação de soluções como o PT Voz Activa, o PT Minha Voz ou o sistema TeleAula. O PT Voz Activa é um "software" desenvolvido conjuntamente com o Inov-Inesc Inovação e que permite o acesso de invisuais à Internet. O PT Minha Voz é "um produto de comunicação aumentativa" que começou agora a ser comercializado pela PT Comunicações.
Para a directora do gabinete para clientes com necessidades especiais, esta é uma "solução revolucionária" para pessoas que não conseguem verbalizar nada ou que têm problemas ao nível da estrutura comunicativa. A novidade está no "software" que reproduz com voz portuguesa as frases escritas num teclado virtual (que pode ser alfabético, silábico ou pictórico) - por exemplo, através de um rato especial manipulável pelo movimento da cabeça montado numa cadeira de rodas.
O TeleAula é um sistema que permite o acesso de crianças acamadas ou retidas em casa (ou no hospital) à sala de aula, através de videotelefonia sobre RDIS ou IP fixo (ADSL). Existem actualmente cerca de uma centena de alunos em regime de TeleAula em Portugal, sobretudo crianças vítimas de fibrose quística ou deficiência motora grave.
Outra solução a instalar na Casa do Futuro é o PT Conversas Voz, uma solução que permite a pessoas com surdez falarem com ouvintes: o surdo escreve o que quer dizer através de um telefone de texto e depois um "software" de TTS (Text To Speech) converte as frases em discurso falado; do lado do ouvinte, é necessária uma operadora, que converte o que é dito para texto. Segundo Clara Cidade, as soluções STT (Speech To Text) hoje existentes no mercado ainda estão muito limitadas quanto ao número de vocábulos reconhecidos. A fase inicial da experiência-piloto desta solução arrancou na semana passada.
No novo quarto dos avós, a construir de raiz, os visitantes poderão ver em funcionamento soluções como o PT Emergência - destinado a pessoas em risco, como os acamados sozinhos e as pessoas com deficiência motora e intelectual sozinhas - ou o TeleAlarme, o serviço de apoio domiciliário disponível 24 horas por dia para idosos sozinhos, que é fornecido pela PT Comunicações e pela Cruz Vermelha.
Noutras áreas da casa, também serão introduzidas soluções de acessibilidade, destinadas a uma população vasta: cegos e amblíopes, pessoas com mobilidade ou capacidade de manuseamento reduzidos (caso dos doentes neuromotores, por exemplo), surdos e pessoas com audição reduzida, limitados da voz (caso dos laringectomizados), pessoas com deficiências cognitivas, pessoas em risco - idosos ou pessoas com deficiência sozinhos -, com doença severa (acamados, em convalescença ou isolados) ou com deficiências comunicativas. Um exemplo simples poderá ser a instalação, na casa-de-banho, de torneiras acessíveis por pessoas com mobilidade reduzida.
Para concretizar tudo isto, a Casa do Futuro contará com vários parceiros tecnológicos, entre os quais a PT Comunicações, a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) - que, para Clara Cidade, "tem o 'site' mais inteligentemente acessível para pessoas com deficiência" -, a PT Inovação, o Inov-Inesc Inovação, a Anditec (empresa dedicada às tecnologias de apoio) e a TeleAlarme (participada da PT). Contribuirão também para tornar a Casa do Futuro acessível parceiros associativos, como a Liga Portuguesa dos Deficientes Motores, a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (Acapo), a Associação Portuguesa de Surdos e a Federação Nacional de Cooperativas de Solidariedade Social (Fenacerci).
Para que o projecto cumpra os seus objectivos, na opinião de Clara Cidade, seria bom, por exemplo, que a Acapo disponibilizasse para a Casa os mecanismos de simulação da ambliopia de que dispõe. Dessa forma, as pessoas sem essa condição poderiam experimentar - e não apenas ver e ouvir falar sobre - o acesso à Net de olhos vendados e sem utilizar o rato. Outro aspecto importante será a Casa passar a dispor de guias especializados nestas áreas da acessibilidade a fim de acompanharem os visitantes.

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