ACAPO debate Turismo Acessível
No âmbito do Dia Nacional das Acessibilidades
No passado dia 30 de outubro, a ACAPO promoveu, no Auditório António da Costa Leal, da Associação Mutualista Montepio, em Lisboa, o Seminário Nacional Turismo Acessível. O encontro reuniu pessoas cegas e com baixa visão, profissionais, estudantes e entidades ligadas ao setor turístico para refletir sobre a acessibilidade em todas as etapas da experiência de viagem. A mensagem central do seminário foi clara: antes de ajudar, decidir ou presumir necessidades, é fundamental ouvir e perguntar. Integrado nas comemorações do Dia Nacional da Acessibilidade, o evento destacou a importância de garantir que as pessoas com deficiência visual possam usufruir do turismo em condições de igualdade, autonomia e segurança, desde o planeamento da viagem até ao acesso às atividades culturais e de lazer. Num setor em que não existem soluções universais, a acessibilidade constrói-se através do diálogo com quem utiliza os serviços e do respeito pelas suas escolhas e autonomia. O evento contou com o apoio da Associação Mutualista Montepio, que disponibilizou o espaço.
Na sessão de abertura, Carlos Morais Beato, administrador executivo da Fundação Montepio, destacou a importância e a atualidade do tema. Sónia Esperto, presidente do Conselho Diretivo do Instituto para os Direitos das Pessoas com Deficiência (IDiPD), abordou o trabalho desenvolvido em articulação com o Turismo de Portugal e com as organizações representativas das pessoas com deficiência. Rodrigo Santos, presidente da Direção Nacional da ACAPO, recordou o percurso da Associação na defesa dos direitos das pessoas com deficiência visual e os desafios que permanecem por ultrapassar.
A primeira mesa centrou-se no planeamento e na escolha de uma viagem. Ana Patrícia Santos partilhou a sua experiência enquanto turista cega, descrevendo a forma como procura informação, avalia destinos e prepara as suas deslocações. O seu testemunho evidenciou os recursos que utiliza, mas também as barreiras que continuam a dificultar uma escolha informada. Arthur Minniti, fundador da agência brasileira Viagem Acessível, trouxe uma perspetiva complementar, demonstrando que a acessibilidade pode resultar de medidas simples, desde que os prestadores de serviços conheçam e compreendam as necessidades dos seus clientes.
Os desafios da mobilidade estiveram em destaque na segunda mesa, que reuniu Carla Oliveira, do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), Carla Pinto, da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), Susana Baptista, da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT), e Marta Pinheiro, enquanto passageira com deficiência visual. A discussão incidiu sobre os transportes terrestres e aéreos, os serviços de transporte contratados através de aplicações móveis e as assistências disponíveis. A experiência relatada por Marta Pinheiro permitiu aproximar o debate da realidade dos utilizadores, identificando avanços alcançados, mas também dificuldades que continuam a exigir respostas. A participação destas entidades proporcionou uma oportunidade para esclarecer dúvidas e debater diretamente questões relacionadas com a acessibilidade nos transportes. Ficou evidente a importância de garantir informação acessível, assistência adequada e respeito pelas decisões e pela autonomia de cada passageiro.
A presença destas entidades permitiu conhecer melhor o trabalho desenvolvido na área da acessibilidade e colocar questões diretamente a quem tem responsabilidades na regulação e supervisão do setor. Houve espaço para apresentar barreiras que persistem e relacionar as respostas existentes com as necessidades de quem utiliza os transportes. A disponibilidade para ouvir, o cuidado na abordagem das questões e o reconhecimento da sua importância favoreceram um diálogo próximo entre a experiência dos passageiros e a perspetiva das entidades. Ficou evidente a necessidade de considerar a deslocação no seu conjunto, com informação acessível e assistência adequada, respeitando sempre a autonomia e as decisões de cada pessoa.
Na mesa sobre alojamento e restauração, Helena Ribeiro, em representação do Turismo de Portugal, e Fátima Ferreira, da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, deram a conhecer o trabalho desenvolvido na formação e sensibilização dos profissionais. Marta Braz trouxe a experiência de quem utiliza estes serviços e explicou como comunica as suas necessidades e orienta os profissionais quando encontra desconhecimento sobre o atendimento a uma pessoa cega. A sua partilha mostrou o valor desse diálogo na resolução de situações concretas, enquanto evidenciou a importância de preparar as equipas para responderem aos clientes. O debate permitiu relacionar a formação com a prática diária e refletir sobre o que falta fazer para assegurar um acolhimento acessível ao longo da estadia e das refeições.
A última mesa juntou Fátima Alves, da Locus Acesso, Ilídia Carvalho, dos Guias de Portugal — Guias 4All, e Ana de Jesus Dias, enquanto utilizadora cega. Museus, exposições, monumentos, concertos e passeios turísticos estiveram em discussão, incluindo o contributo das maquetes tridimensionais e de outros recursos para compreender e explorar os espaços. Ana Dias partilhou o que procura e encontra de interessante nas visitas que realiza, bem como a forma como pesquisa informação sobre os locais e as atividades. O seu testemunho ajudou a perceber como os recursos disponíveis e a informação sobre acessibilidade influenciam a escolha e o aproveitamento de uma experiência cultural ou turística. As partilhas deram a conhecer possibilidades já existentes, embora com diferentes níveis de acessibilidade, e reforçaram a importância de essa informação chegar às pessoas cegas e com baixa visão.
O encerramento contou com Maria Teresa Rodrigues Monteiro, vice-presidente do Conselho Diretivo do Turismo de Portugal, em representação do Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços.
Para os operadores e futuros profissionais do setor, o encontro reforçou que as pessoas cegas e com baixa visão são clientes, com interesses, preferências e expectativas que devem ser considerados na conceção dos produtos e na prestação dos serviços. A acessibilidade precisa de integrar o funcionamento quotidiano das organizações, das plataformas digitais ao atendimento presencial, com a mesma atenção dedicada às restantes condições de qualidade de uma experiência turística.
Este entendimento encontra fundamento na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. O artigo 9.º prevê o acesso, em igualdade de condições, ao meio físico, aos transportes, à informação e à comunicação; o artigo 30.º reconhece o direito à participação na vida cultural, na recreação e no lazer, incluindo o acesso a serviços e locais turísticos.
Dar a conhecer essas possibilidades às próprias pessoas cegas e com baixa visão foi um dos objetivos centrais do seminário. Há locais, recursos e serviços acessíveis que importa divulgar, para que cada pessoa possa saber o que existe, esclarecer as condições disponíveis e decidir onde quer ir e o que pretende fazer. Conhecer as experiências de outros viajantes permite também descobrir formas de preparar uma visita, procurar informação e comunicar necessidades que podem ser úteis em futuras escolhas.
O seminário deu continuidade a um trabalho que a ACAPO desenvolve há muitos anos e que pretende prosseguir: a auscultação dos associados, a formação e a colaboração com entidades e profissionais, contribuindo para eliminar barreiras físicas, digitais, comunicacionais e atitudinais. Desse trabalho faz também parte aproximar as pessoas das oportunidades que já existem e fazer chegar ao setor aquilo que continua a faltar. É essa ligação que se quer prolongar para além do encontro: que o conhecimento partilhado ajude alguém a preparar a próxima viagem, a descobrir uma visita que desconhecia ou a escolher uma atividade com informação sobre as suas condições de acessibilidade. E que, do lado de quem presta os serviços, se traduza em práticas que respeitem a autonomia e a liberdade de escolha de cada cliente. Há um caminho a continuar, com conquistas para reconhecer e condições de acessibilidade por concretizar. A ACAPO continuará a percorrê-lo com os seus associados e com quem tem responsabilidade em tornar o turismo acessível.
E não se esqueça: Pergunte sempre!
