A Vida Independente tem muitas formas de se revelar. Às vezes surge num gesto simples, noutras numa conquista maior, mas quase sempre nasce de uma combinação de apoio, confiança e oportunidade. Durante o mês de maio, os três CAVI da ACAPO Norte, Centro e Lisboa,  tornaram visível essa transformação. Não através de discursos, mas através das pessoas que vivem, constroem e sustentam este modelo todos os dias.

Desde 2019, esta realidade existe na ACAPO: Centros de Apoio à Vida Independente (CAVI), afirmando-se como uma estrutura essencial na promoção da autonomia das pessoas com deficiência visual. Atualmente, estes três centros apoiam 175 beneficiários, contando com o trabalho dedicado de 72 Assistentes Pessoais (AP) e de 3 equipas técnicas, compostas por 12 profissionais. É esta rede humana que dá corpo ao serviço e que transforma, diariamente, o conceito de Vida Independente em realidade.

O mês de maio começou com uma data que, para nós, tem um significado especial: 5 de maio, Dia Europeu da Vida Independente. Em toda a Europa, este dia é marcado por debates, fóruns e mobilizações que lembram que a autonomia não é um privilégio, mas um direito, um direito que ainda precisa de ser plenamente garantido, sobretudo para quem vive com deficiência. Foi neste contexto que beneficiários, Assistentes Pessoais e equipas técnicas se reuniram num grande momento de partilha na sessão “Vida Independente na Deficiência Visual”. Cerca de oitenta participantes refletiram sobre o que significa viver com autonomia quando se tem deficiência visual e sobre o que ainda falta para que essa autonomia seja plena. Não foi apenas uma sessão: foi um retrato vivo do que a Vida Independente representa para quem a vive todos os dias.

A partir desse encontro, o mês ganhou vida própria. Nas redes sociais, o Mural da Vida Independente tornou-se um espaço de expressão e reconhecimento. Testemunhos enviados pelos nossos beneficiários mostraram, em poucas palavras, o impacto profundo da assistência pessoal: “A Assistência Pessoal é uma ponte que me levou da dependência à liberdade.”, “Recuperei a minha carreira.”, “Sinto-me livre para escolher o meu próprio caminho.”, “Posso ter uma vida mais ativa e saudável.” e “Sinto-me a viver mais feliz.”. São frases simples, mas carregadas de mundo. Revelam que a autonomia não é apenas funcional, é emocional, social, identitária. É a possibilidade de viver a vida com dignidade e escolha.

Na segunda semana, mais precisamente no dia 12, realizou-se uma sessão online de boas práticas, que reuniu as equipas técnicas dos três CAVI da ACAPO. O encontro teve como principal objetivo promover a partilha de metodologias, ferramentas e estratégias de intervenção, criando um espaço de reflexão conjunta sobre os desafios e práticas desenvolvidas nos diferentes contextos de atuação. Durante a sessão, foram apresentados materiais e instrumentos de trabalho desenvolvidos pelas equipas, tendo ficado expressa a intenção de, futuramente, construir um manual conjunto de boas práticas, sustentado nos contributos e experiências partilhadas entre os diferentes serviços.

E porque a colaboração também se fortalece fora das reuniões formais, nessa mesma semana decorreu uma atividade de team building que aproximou equipas geograficamente distantes, criando laços que tornam o trabalho diário mais coeso e mais humano. Ficou evidente que estes profissionais são muito mais do que apoio técnico: são facilitadores de liberdade, construtores de confiança e peças essenciais na concretização da autonomia. Através de uma dinâmica interativa e descontraída, baseada em respostas previamente recolhidas junto dos participantes, foi possível criar um ambiente de partilha, boa disposição e conhecimento mútuo, permitindo fortalecer laços interpessoais, promover a coesão entre equipas e reforçar o sentimento de pertença entre os diferentes CAVI.

A terceira semana foi dedicada à valorização dos Assistentes Pessoais, profissionais fundamentais na concretização do Modelo de Apoio à Vida Independente. No dia 18 de maio, realizou-se uma sessão online dinamizada pelo Departamento Jurídico da ACAPO, dirigida aos Assistentes Pessoais dos três CAVI, que contou com cerca de 41 participantes, entre Assistentes Pessoais e elementos das equipas técnicas. Uma sessão muito participada, centrada na reflexão sobre a assistência pessoal enquanto função essencial à promoção da autonomia, autodeterminação e participação das pessoas com deficiência, abordando simultaneamente os desafios associados ao reconhecimento e valorização da profissão de Assistente Pessoal em Portugal. Foram exploradas diferentes possibilidades de afirmação e profissionalização da função, incluindo modelos de representação coletiva e exemplos de enquadramento existentes noutros países, proporcionando um importante momento de esclarecimento, reflexão e participação ativa dos profissionais presentes.

No dia 19 de maio, decorreu uma ação de team building dirigida aos Assistentes Pessoais, em formato presencial e online, proporcionando um ambiente informal, seguro e participativo, pensado para estimular a interação, a comunicação e a partilha de experiências entre profissionais com diferentes percursos e níveis de experiência. Esta iniciativa permitiu reforçar laços, promover o conhecimento interpessoal, fortalecer redes de apoio e sublinhar a relevância do trabalho desenvolvido diariamente pelos Assistentes Pessoais na promoção da Vida Independente.

Com este conjunto de iniciativas, a ACAPO procurou assinalar o Dia Europeu da Vida Independente através de um programa abrangente e participado, envolvendo diferentes intervenientes dos CAVI e promovendo momentos de reflexão, capacitação, valorização profissional e fortalecimento das redes de colaboração. Estas comemorações refletem o compromisso contínuo da ACAPO com a promoção da Vida Independente, da inclusão e da participação plena das pessoas com deficiência visual, reconhecendo igualmente o papel fundamental de todos os profissionais que contribuem diariamente para a concretização deste modelo.

Bárbara Padrela, Coordenadora dos CAVI, resume assim o espírito deste mês e o compromisso que o acompanha: “O trabalho desenvolvido pelos CAVI ao longo deste mês mostra o compromisso, a dedicação e a capacidade transformadora das nossas equipas e dos nossos beneficiários. Temos orgulho no caminho percorrido, mas sabemos que ainda há passos importantes a dar para reforçar a autonomia e a qualidade de vida de quem apoiamos todos os dias.”

O mês terminou, mas o nosso compromisso permanece. Os CAVI continuam a ser espaços onde a independência se constrói todos os dias, com rigor, proximidade e humanidade, porque a Vida Independente vive-se todos os dias. Três CAVI, um propósito comum: autonomia para todos.

E há algo que este mês deixou claro: a Vida Independente só é possível porque existem pessoas dispostas a apoiar outras pessoas. Por isso, este é também um convite, um convite a quem acredita na inclusão, na dignidade e no poder da autonomia, a quem quer fazer parte de uma mudança real, a quem procura um trabalho com impacto direto na vida de alguém. Ser Assistente Pessoal é ser ponte, é ser apoio, é ser liberdade. E os nossos beneficiários precisam de mais pessoas assim. Porque, nos nossos CAVI, todos os dias são 5 de maio.

Duas folhas num quadro de cortiça: na superior lê-se “O assistente pessoal ideal é”. Por baixo, está desenhada a silhueta de uma pessoa preenchida com vários adjetivos. Na inferior, vemos frases em resposta ao título "O que mais valorizo em ser AP".