O amor pode ser visto de muitas formas - A nossa história vista por eles
A nossa história vista por eles
por Patrícia Santos
No céu dos cães, sentados sobre a nuvem mais fofa, dois cães conversavam.
— Achas que eles ainda se lembram do primeiro dia? — perguntou Scout, esticando-se ao sol, deixando o seu brilhante pelo preto bem quentinho.
Nobel sorriu, com o seu nariz castanho, aquele que os donos apelidavam de nariz bombom.
— Lembram-se de tudo, tenho a certeza.
Lá em baixo, a dona e o dono caminhavam juntos, guiados pelo Linux, mas sempre com os seus anteriores cães-guia no coração.
— Eu reparei em ti antes de eles repararem um no outro — disse Scout, abanando a cauda. — Já nos tínhamos visto. Lembras-te? Foi numa coisa a que eles chamam de Olimpíadas do Braille.
— Lembro. Nós quisemos ir um para o outro, mas eles não deixaram.
— Não era o tempo — respondeu ela sempre muito sensata. - Eles tinham outras vidas que não se cruzavam. Mas nós, que vemos mais do que os humanos, percebemos logo que algo ia acontecer mais cedo ou mais tarde.
— Depois vieram as mensagens e as músicas, essa coisa que liga os corações dos humanos. — disse Nobel, divertido. — Os humanos acham sempre que o amor começa numa conversa qualquer ou num encontro, mas não tem de ser assim.
Scout riu-se.
— E nós? Sempre presentes. Sempre atentos.
Foram muitas saídas a quatro. Caminhadas longas. Viagens em que fomos todos descobrir o mundo. E caminhávamos juntos como se toda a vida tivesse sido assim. A dona com a mão firme na trela da Scout, que andava sempre apressada. O dono protegido pelo sempre atento Nobel. E, entre eles, um silêncio confortável que só aparece quando o amor é a maior certeza que existe.
— Sempre foste um mimalho — disse Scout, inclinando a cabeça na direção de Nobel. — Mas quando era preciso, ninguém passava por ti.
— E tu eras impossível de ignorar — respondeu ele. — Senhora do teu nariz, mas linda de morrer.
Scout endireitou-se, vaidosa.
Houve um tempo em que tudo quase não foi. Os humanos chamam-lhe dúvida. Nós chamamos-lhe medo.
— Lembras-te desse dia? — perguntou Scout, mais séria, baixando o nariz.
Nobel lembrou-se. Lembrava-se de tudo.
— Aproximei-me da dona. Ela estava parada, como se o mundo tivesse encolhido. Encostei-me a ela e, com um toque de focinho, quis dizer-lhe “vai ficar tudo bem”.
Scout fechou os olhos por um instante.
- Depois, o amor venceu o que tinha de vencer. Não foi fácil. Nunca é. Mas foi verdadeiro. E quando é assim, as coisas acontecem.
Os anos passaram. Doze, quase. Uma casa. Uma vida partilhada. Risos. Cansaços. A certeza tranquila de quem escolhe a outra pessoa todos os dias.
— E então veio o bebé — disse Scout, com a voz suave. — Eu via a dona cada vez mais cansada antes dele nascer e eu já me sentia tão doentinha. Mas todos os dias abanava a minha cauda e fazia mais um esforço por ficar.
— Tu esperaste — disse Nobel.
— Esperei. Um mês. Queria ter a certeza de que estava tudo encaminhado.
Lá em baixo, a dona e o dono brincavam com o bebé e o Linux dormia na caminha que tinha sido da Scout. A ausência do Nobel e da Scout ainda doía, mas a dor já ia dando lugar ao amor.
— Achas que fizemos bem o nosso trabalho? — perguntou Scout.
Nobel olhou outra vez para a Terra.
— Guiámo-los até onde foi preciso. O resto foi com eles!
Scout abanou a cauda, satisfeita.
— Então podemos descansar. Missão cumprida!
E no céu dos cães, dois cães-guia felizes deitaram-se lado a lado a olhar para aquela que sempre será a sua família, certos de que a maior missão das suas vidas tinha sido cumprida: não apenas descobrir caminhos, mas levar dois corações ao lugar certo.
Se esta é a sua história preferida, tome nota do título e do autor e deixe um “Gosto” ou “Adoro” na imagem correspondente a esta história na nossa página de Facebook.