A Viagem

por Celina Sol

Como tudo agora lhe parecia um sonho, sim, um maravilhoso sonho que teimava em não querer expulsar da sua mente.

Fora tudo tão natural, tão casual e sem qualquer premeditação.

De repente, sem saberem como, encontravam-se frente a frente numa das muitas ruas da cidade, dialogando e, seguidamente, num restaurante, separando-se algum tempo mais tarde, como dois amigos de longa data.

O tempo continuou a correr indiferentemente, até que, mais uma vez ao sabor do acaso, julgou ela, pois já esquecera o agradável episódio, ele surgiu, desta vez à esquina de uma rua perto do seu emprego.

Sem saberem mais uma vez como (pelo menos ela não o sabia), sentiram-se atraídos um pelo outro, como se fizessem parte, desde sempre, de um único todo universal.

Sem o conhecer, ela teve a certeza que fora por ele que sempre havia esperado.

Quem era ele? Isso que importava?

O que importava, afinal, era tê-lo nos seus braços, aspirar o seu odor másculo, sentir todas as palpitações do seu ser, nos poucos momentos fugazes, tornados por eles eternidades, entregues aos seus devaneios, longe da malícia dos homens, guardando só para si tudo aquilo que nem as palavras, nem os gestos e nem os silêncios poderiam destruir.

Agora, porém, sem saber como nem porquê, o sonho lindo transformara-se num terrível pesadelo.

Mais uma vez, encontrava-se à  deriva no imenso oceano desértico que era a sua vida, procurando agarrar-se com desespero a uma única tábua de salvação, que teimava em querer escapar das suas frágeis e já calejadas mãos, esgotadas de tantas vigílias, angústias e lutas inglórias suportadas.

Compreendeu, por fim, que não valia a pena chamar, porque ninguém a ouviria naquele ermo perdido, há muito esquecido dos outros seres do orbe.

Talvez tivesse sido preferível ter-se precipitado no abismo, tal como acontecera, acidentalmente, ao seu companheiro. Quiçá, lá encontraria o almejado repouso de que a sua alma e o seu corpo estavam sedentos.

De repente, as forças faltaram-lhe e ela rolou, precipitando-se no abismo, arrastando atrás de si calhaus e nuvens de pó. Sem tempo para soltar um grito de pavor, ou mesmo um ténue gemido, pensou:

“Acabou-se tudo.”

E sentiu-se pequena, anulada pela sua impotência perante o inevitável.

Passado o choque inicial, descobriu, com espanto, que se encontrava estendida numa gruta branca, pequena, atapetada de musgo. A seu lado, como que por encanto, lá estava ele, o seu querido companheiro, aquele em quem se apoiara sempre, ao longo de toda uma vida, nas horas felizes e nas horas incertas, aquele que nunca lhe falhara com o seu sorriso meigo e pleno de compreensão, sem palavras, porque as palavras são desnecessárias quando se possui um tal sorriso penetrante, capaz de abarcar tantos e tão variegados sentimentos.

Estavam, pois, de mãos dadas, de novo juntos.

Que importava agora a casa branca onde outrora haviam vivido, o jardim pleno de flores belas e exóticas e o seu lago de águas claras e límpidas, se dentro deles corria um rio de amor e se brotavam, semelhantes a flores raras e delicadas, anseios de felicidade, forças desconhecidas capazes de derrubar montanhas, de dominar os ventos contrários, de mover com as suas próprias emoções as pedras que os circundavam.

Com elas erigiriam, a partir daquela pequena gruta transformada, a mansão dos seus pequenos e grandes sonhos tornados realidade.

Era o início de uma segunda viagem!

São já decorridos 25 anos e a viagem continua rumo á eternidade.

 

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