De que cor é o amor?

por Vera Rodrigues

Esta história é minha, mas podia perfeitamente ser tua…

No início, pensei que a escuridão não era para mim. A mim? Nada me acontece. Isso é só aos outros, não a mim. Mas, em menos de nada, não era apenas ausência de cor. Um tecido negro caiu sobre o meu mundo. E, por mais que implorasse aos olhos que se lembrassem do caminho de volta, eles não me respondiam. Quase como se já não fossem parte de mim.

A primeira noite foi interminável.

A segunda, insuportável.

Na terceira, percebi que nunca mais ia acabar.

Depois veio o médico falar com palavras técnicas, como se a tragédia fosse menos cruel quando é embrulhada em vocabulário elegante. Degeneração, diz ele. Irreversível.

Só resta adaptação.

Durante semanas, fui um fantasma dentro da minha própria casa. Os passos eram pequenos, medidos. As mãos tornaram-se os seus olhos, percorrendo paredes, cantos, móveis familiares que agora pareciam estranhos, perigosos.

A saudade da luz era um grito preso no peito.

Até que encarei a escuridão de frente. Roubaste-me a estabilidade, o trabalho, mas não me vais roubar a alegria de viver. A vida não vai deixar de ter cor só porque a deixei de ver. Tenho de a procurar de outra forma.

E, contra tudo e todos, decidi sair e dar uma volta pelo parque atrás da minha casa. Não é que não entendesse a preocupação de quem me amava, mas já bastava a clausura que a doença me causava. Recusava-me a deixar de viver. Só porque era diferente, não significava que era menos capaz. Antigamente usava os olhos, agora uso o que me resta, e não foi por isso que o mundo deixou de ser menos belo.

Peguei na bengala, como quem segurava uma nova esperança, e caminhei até ao parque. Conhecia aquele lugar antes da escuridão. Sabia onde ficavam os bancos, os caminhos de terra, as árvores antigas.

Mas agora, tudo era diferente. O som inundava os meus ouvidos. As folhas sussurravam desde o topo das árvores. As crianças gargalhavam. E o meu coração enchia-se de alegria.

Enquanto deambulava pelo caminho de terra, ouvi um cão. O seu ladrar era forte, mas carregava uma meiguice que não sabia explicar. E, sem saber muito bem, pus-lhe a mão sobre o pelo macio. E ele era alegria descontrolada em estado puro. As suas patas da frente foram de encontro à minha barriga. Como se me quisesse abraçar.

— Nico, para! A senhora não consegue…

Mesmo sem ele precisar de terminar a frase, já sabia o que queria dizer.

— Não tem mal… eles têm mais sensibilidade que os humanos… — Disse-lhe eu.

— Não queria ofender. Desculpe. Só tinha medo que a aleijasse.

E, pela forma apologética que a sua voz ecoava, conseguia perceber que era um homem forte e robusto.

Sorri sem querer. Esta doença trouxe-me uma insegurança tremenda, que até achei que nunca mais seria capaz de conhecer pessoas novas. Mas estava errada.

O focinho húmido do Nico roçava na minha mão, e o vento da sua cauda a abanar refrescava-me.

— Parece que o Nico gostou de ti… Posso tratar-te por tu?

— Claro. — Sorri e continuei a fazer festinhas no cão.

— Peço desculpa mais uma vez! Ele costuma ser educado, juro. Só que hoje decidiu que o mundo é dele.

A voz dele era baixa, mas eu ia jurar que por trás daquelas palavras se escondia um sorriso. E essa ideia aqueceu-me o coração.

— Não é necessário um pedido de desculpa… — disse-lhe. — Acho que… precisava disto.

Instalou-se um silêncio breve.

— Está tudo bem? — Perguntou ele, mais devagar agora.

Hesitei. Sabia que aquela pergunta era por causa da bengala. Mas se foi coisa que aprendi é que ter vergonha do que me aconteceu não me levava a lado nenhum. Enchi o peito e deixei que a verdade me saísse pelos lábios.

— Perdi a visão há pouco tempo.

O ar mudou. Ele calou-se por instantes, mas quando falou, desarmou-me por completo.

— Que raios. Tenho mesmo azar.

Elevei as sobrancelhas.  Estava confusa. Não era de todo a reação que estava à espera. Já me tinha habituado à pernas, mas a sito não.

— Ai é? Porquê? — Questionei-o de imediato.

— Não é óbvio? — disse por entre um sorriso maroto. — Assim as minhas hipóteses diminuíram e muito. Queria-te conquistar com a minha beleza, agora estou tramado!

Senti um calor subir-me pelas bochechas acima, enquanto me perdia numa gargalhada.

Se calhar não… continua a fazer-me rir e, quem sabe…

Passaram dez anos, e aqui estamos, juntos e unidos. Unidos por uma ligação bela demais, que nem preciso de olhos para a sentir. O amor tem muitas formas, muitas cores, muitos sons, e não perde força, mesmo quando abro os olhos e só vejo escuridão.

Posso não ver o rosto dele, não sei se ele é belo aos olhos dos outros, mas para mim é lindo. Conheço cada centímetro, cada poro do seu corpo. Quando ouço a sua voz sussurrar no meu ouvido, o meu coração vibra e a minha vida enche-se de cor.

Já o nosso Nico está velhinho e precisa de ajuda para subir degraus, tal como eu, mas mesmo assim continua a ser como um farol que caminha sempre à minha frente para me indicar o caminho..

E, mesmo sabendo que nunca os vou ver como o resto do mundo, sinto-me abençoada, porque sei que os vejo melhor que o resto do mundo. Este amor é a cor que faltava à minha vida.

 

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