Manhã cinzenta

por Luís Vasconcelos

Aquele dia amanheceu chuvoso e cinzento. Poderia ter sido mais um igual a tantos outros, mas não foi.

Era o dia anualmente mais aguardado pelos habitantes da cidade. Um dia especialmente festivo, ansiado sempre com enorme expetativa e júbilo. Mas naquele ano, pelo menos para uma família, não! A noite anterior tinha sido a da celebração do São João. O vinho e as sardinhas assadas correram à farta, por entre música, fogueiras acesas, gargalhadas e um cheirinho a  rosmaninho. Mas a festa de arromba seria no dia seguinte, com um desfile de carros alegóricos, bandas filarmónicas, bombos, danças, cabeçudos e gigantones, por entre ruas apinhadas de gente cheia de uma esfusiante alegria de viver!

Numa certa casa, situada algures na cidade, de manhã bem cedo, muito antes de toda a balbúrdia que se adivinhava para aquele dia, um homem prepara-se apressadamente para sair. Os ponteiros do relógio moviam-se de forma implacável. Estava quase na hora! Aquele homem elegante e aprumado, de feições e gestos nobres, acaba de se vestir, sem saber que aquela roupa nunca mais a iria usar. Já não há tempo para o pequeno-almoço.  Despede-se carinhosamente da mulher que tanto amava, e contempla uma última vez o rosto esbelto e apaixonado dela antes de sair. Os seus passos são rápidos. De repente pára, volta-se para trás e procura uma vez mais o doce e meigo olhar dela, que normalmente ficava sempre à porta até o perder de vista. Olham-se intensamente. Ela queria que ele não fosse, e ele não queria ir.  Ambos sentiam dentro deles uma angústia que não conseguiam explicar. Um adeus, qualquer separação mesmo que seja momentânea é sempre triste. Aquela, no entanto, sem que eles o soubessem, mas pressentissem, não era apenas mais uma despedida. O homem retoma a sua marcha, saudando amavelmente todas as pessoas que conhecia e encontrava no caminho. O mesmo caminho que quase diariamente percorria em direção ao seu local de trabalho – a estação de caminhos-de-ferro de Viseu. Só que naquela sombria manhã, sem que ele sequer o suspeitasse, estava a fazê-lo pela última vez, nunca mais o voltaria a percorrer. Havia uma ida, mas não haveria uma volta. Já estava perto, quando ouviu o uivar do sinal de partida do comboio que tinha que apanhar. Desespera. O seu zelo profissional e apurado sentido de responsabilidade não o deixavam sequer permitir-se a si próprio perder aquele comboio e faltar ao compromisso que tinha marcado para aquele dia. Pelo menos era o que ele pensava e não queria de modo nenhum. Seria impensável, inadmissível. O que aquele homem não sabia é que não iria falhar a um outro encontro. De nada adiantava correr tanto, porque estava lá “alguém” à sua espera que não partiria sem que ele chegasse, e não era o comboio. Entrou ofegante na estação, e numa fração de segundo hesitou: “Talvez seja melhor ficar e o que não se conseguir resolver hoje, será feito amanhã!”, terá pensado. Mas, talvez na única decisão imprudente que tomou na sua vida inteira, avançou para o comboio já em andamento e saltou. Diga-se que este homem nascera, crescera e vivera dentro deste mundo ferroviário. Os comboios não tinham segredos para ele. Saltar para um comboio em andamento era algo que já fizera inúmeras vezes, até por brincadeira, especialmente na sua adolescência. Mas naquela fatídica manhã tudo correu mal. A chuva miudinha que teimosamente se fazia manifestar, de algum modo faz com que aquele homem se desequilibre, escorregue e caia. O seu corpo foi arrastado durante alguns metros por aquele comboio assassino, amputando-lhe também ambas as pernas. Até que finalmente parou. Todas as pessoas presentes e que assistiram àquela cena mórbida levaram as mãos à cabeça e correram de imediato em direção ao homem. Em pouco tempo juntou-se imensa gente à sua volta e mais aflitas e perturbadas ficaram quando se aperceberam que se tratava do Senhor Inspetor Horácio. O homem não entrou em pânico, nem começou a gritar descontroladamente. O seu rosto denunciava as horríveis dores físicas que com uma enorme bravura e paciência procurava suportar. Aquilo que mais o afligia era o que poderia acontecer com a sua esposa e os seus filhos que tanto amava “Por favor, não digam para já nada à minha Netinha (era assim que ele ternamente a tratava)! Cuidado quando lhe derem a notícia!”. Entretanto chegou a ambulância, e o que restava do seu corpo mutilado foi colocado numa maca e transportado ao Hospital a toda a velocidade! No chão onde ele tinha estado, uma enorme poça de sangue que do seu corpo saíra!

Entretanto em sua casa. Alguém bateu persistentemente à porta. Preocupada a minha mãe (Sim, porque o homem de quem vos tenho estado a falar era o meu pai!) dirigiu-se para a porta. Entrou alguém, não me lembro quem, que o mais calmamente que podia disse alguma coisa à minha mãe que visivelmente a perturbou. Primeiro ficou pálida, estática, incrédula perante o que lhe tinha sido dito. Depois começou a andar de um lado para o outro, não conseguindo conter as lágrimas que se soltaram profundamente dos seus olhos. Entretanto as pessoas iam entrando, e eu deixei de ver a minha mãe, porque a sala estava cheia de gente que a tentava consolar e tranquilizar. Eu tinha 6 anos, o meu irmão tinha apenas 2. Nenhum de nós percebia nada do que se estava a passar, mas ao ver a nossa mãe chorar, tínhamos a perceção de que era alguma coisa grave. Queríamos chegar perto dela, estar com ela. Mas não nos deixavam. Nós próprios começámos também a chorar. Apercebendo-se disso, ouvi-a dizer: “Eu quero ir vê-lo, mas primeiro quero falar com os meus filhos!”.  Aproximou-se de nós, aparentemente serena: “A mãe vai ter que sair. O vosso pai magoou-se e a mãe vai vê-lo ao hospital. Não se preocupem, está tudo bem, foi só uma queda. Até eu voltar, meus queridos vocês vão ficar com a Dona Clara e com o Sr. Fernando (eram os vizinhos de quem ela mais gostava. Além disso os filhos deles eram meus amigos e também do meu irmão) até eu voltar, está bem?”.

Eu sentia na sua voz e via no seu olhar uma alma fortemente perturbada, que se escondia debaixo dum rosto sereno, Pressenti que seria algo grave…Demasiado grave! Guardei isso em mim. Disfarcei as lágrimas. Inclinei um pouco o rosto. Depois fixei o olhar nela. Dois olhares perdidos que se tentavam encontrar num momento de alguma paz! Como se a não quisesse afligir mais do que ela estava! Mas Porém a angústia do coração da minha mãe cravou-se também em mim. Foi naquele dia que pela primeira vez senti as dores dela como se fossem minhas e nunca mais se desconetou esse vínculo emocional de duas almas gémeas!

No hospital, o meu pai lutava pela vida com todas as forças que lhe restavam. Ficar sem as pernas, por mais doloroso que seja, não mata ninguém, mas o mais grave é que os pulmões tinham sido perfurados. Muita gente apareceu para dar sangue na ânsia de o poder salvar, mas as transfusões não conseguiam resolver o problema. O sangue que entrava voltava a sair. Os médicos sem perder mais tempo, decidiram efetuar a cirurgia, sabendo que era de alto risco. O meu pai, desde o momento em que caíra na Estação, até à altura em que se preparava para entrar no bloco operatório, nunca perdeu a consciência. Suportou as horríveis e dilacerantes dores físicas, mas o sofrimento mais agonizante foi ficar cara a cara com a morte, tendo quase a certeza absoluta que iria perder e nunca mais poderia estar com os filhos e a mulher que ele tanto amava! Talvez por momentos tenham passado na sua mente, cenas e sentimentos marcantes na relação tão profunda, intensa e cúmplice com a sua amada Netinha. Eles amavam-se de uma forma tão bonita, tão única, perdidamente, loucamente! Tantas lágrimas choradas um pelo outro e um com o outro, de tristeza ou de alegria! Tantas batalhas travadas, algumas perdidas, muitas outras vencidas, mas sempre juntos em todas as caminhadas; juntos em tantos medos, desabafos, confidências e sonhos! Tantas emoções partilhadas, sempre apoiando-se um ao outro e um no outro! Não havia segredos ocultos, nem mistérios por desvendar entre eles! Viviam um para o outro, e para os seus filhos (nós, eu e o meu irmão), eram verdadeiramente duas almas juntas num só ser.

Por instantes o meu pai deve ter recordado o primeiro olhar, o primeiro beijo, a primeira vez que abraçados ou de mãos dadas percorreram a Avenida da Estação, nas noites amenas da Primavera, ou nas noites quentes de Verão. Das inúmeras ameaças de morte para se afastar da minha mãe, por parte de alguém que mais tarde se tornaria num dos seus melhores amigos, ao ponto de comprar uma arma para se proteger, ele que se opunha acerrimamente contra qualquer espécie de violência! Do dia tão especialmente feliz do seu casamento, da romântica e doce lua-de-mel! Do nascimento e morte da primeira filha, apenas com meia dúzia de dias de vida. Tanta paixão, companheirismo, carinho, ternura e amor com a promessa de se amarem até ao fim das suas vidas. Talvez tenham surgido memórias do momento mais crítico que vivera na sua relação com a minha mãe, quando a vida dela esteve em grave risco. Devido a uma insuficiência cardíaca o seu frágil corpo foi inundado por uma brutal acumulação  de líquidos, que a deixaram acamada durante 3 longos anos. Como foram angustiantes esses dolorosos anos em que a sua querida esposa poderia a qualquer momento não mais resistir, e partir. Todos os dias ele deslocava-se várias vezes do trabalho, só para se certificar que ela estava bem. À noite recusara-se sempre deixar de dormir junto dela, apesar de ter só um espacinho à beira da cama para se deitar. Quantas lágrimas não chorara longe dela. O seu medo de a perder era tanto, que sacrificou as suas convicções ateístas e passou a recorrer também ele a um Deus no qual não acreditava, nem conhecia, ajoelhando-se aos pés da cama, enquanto o seu amor descansava mesmo não sabendo como tal se fazia, ele rezava sozinho na silenciosa escuridão da noite. E Deus ouviu-o. O corpo da minha mãe estava exausto, não iria aguentar muito mais tempo. Os recursos médicos estavam também a esgotar-se. Já haviam sido efetuadas várias extrações de liquido, só de uma vez tinham saído 60 litros. Paradoxalmente o seu otimismo, esperança, determinação, boa disposição e alegria de viver contagiava e surpreendia todos os que a visitavam. Ao contrário do meu pai que tinha tendências mais depressivas, era a minha mãe que procurava tranquilizá-lo, encorajá-lo, levantá-lo e dar-lhe as forças para seguir em frente! Quando ele precisava dela, ela estava sempre lá, quando ela precisava dele, não havia nada que ele não fizesse por ela, e ali ficava do seu lado. Por isso se completavam tanto e tão bem. Quando a última punção foi efetuada, se não corresse bem, ela não resistiria e partiria. Mas, ao contrário dos receios dos próprios médicos, ela resistiu e ficou. Ainda não tinha chegado a sua hora. Alguns anos depois, era o meu pai que tentava manter-se no mundo dos vivos, muito perto de perder tudo o de mais precioso e valioso tinha: a mulher que adorava, os filhos que amava e a vida, aos 40 e poucos anos de idade. Portanto, supostamente ainda com muitos anos por viver pela frente, para amar e apoiar a sua querida Netinha na sua doença, ajudá-la a criar e cuidar dos filhos e fazer com que eles fossem crianças felizes, jovens respeitadores e adultos íntegros. Angustia-me imenso saber que o meu pai estava a um passo da morte, crendo que tudo se acabaria ali, e que nunca mais iria ver a sua mulher e os seus filhos. Prefiro imaginar que naqueles dramáticos e fatídicos instantes aquele Deus que ele se esforçara por conseguir acreditar, porventura em vão, lhe terá aberto as portas do Céu, e mostrado a eternidade sem fim, junto de quem mais amara, para nunca mais se voltarem a separar, num mundo sem dor, sofrimento ou morte, e onde poderiam ser finalmente felizes para todo o sempre; e que essa visão o terá confortado e lhe trazido paz e serenidade! Apercebendo-se do fim, pediu para falar com um ou outro amigo ou familiar que por lá se encontravam, e pediu com veemência: “Nunca desamparem a minha Netinha e os meus filhos!”. Quando a minha mãe chegou ao Hospital, já não foi a tempo de o ver. Tudo tinha terminado, desta forma cruel, que até hoje me indigna e revolta, por entre pancadas festivas de bombos, e lançamento de foguetes que ecoaram e se fizeram repercutir para sempre nos ouvidos da minha mãe, naquele dia 24 de Junho, cinzento, que pôs fim e sadicamente ao relacionamento de duas pessoas que se amavam com tanta força. Foi um dia sinistro, horrível que despedaçou e rasgou completamente o coração de uma mulher que de um momento para o outro, assim brutal e abruptamente teve que dizer adeus ao homem que estava dentro dela em cada célula e gene de si. A minha mãe nunca mais foi a mesma. O tempo foi fazendo lentamente com que a dor fosse um pouco atenuada, mas não mais desapareceu. A ferida  continuou aberta, não parou de sangrar, nunca cicatrizou. Era como se a vida dela tivesse partido com ele, e o seu coração também parasse de bater. O vazio imenso que nada nem ninguém preencheu. A solidão e a saudade de quem de repente se sentiu desamparada, sem os mimos e cuidado protetor do meu pai. Nunca deixou de o amar, nunca perdeu a ligação a ele, nunca deixou de sentir imensamente a sua falta, que se revelava quando passou a haver menos um prato na mesa, e um lugar por ocupar, ou então quando se deitava, e naquela cama que subitamente se tornara enorme, procurava o calor do corpo do meu pai e já não o encontrava. Nos Natais faltava a prenda dele e para ele. Nas festas de aniversário a voz dele não se fazia ouvir no momento de cantar os parabéns. Todo esse desencanto ela começou a traduzir em versos que escrevia num pequeno diário, através do qual falava com ele. Amaldiçoado dia! Que golpe tão sujo, nojento e bárbaro desta Vida que às vezes parece existir para nos maltratar e matar. Se a Vida é um jogo, então ela só paga para ver, uma roleta russa em que nunca sabemos quando a bala estará no revólver, e ao premirmos o gatilho, vai disparar e rebentar com a nossa cabeça!

Quem matou o meu pai? O comboio que passou por cima dele? A chuva que caía e o fez escorregar? Deus não tinha poder para o segurar? Então porque não o fez? O meu pai não era digno de ser socorrido, por ter dúvidas e incertezas quanto à Sua existência? O destino que já estava traçado nos astros ao qual ele não podia escapar? O diabo, porque tem um orgástico prazer em fazer e ver sofrer, principalmente aquelas pessoas, que lutam e se esforçam por tornar  este mundo menos mau? O obsessivo sentido do dever que o meu pai tinha? Valia para ele mais um dia de trabalho perdido do que a sua felicidade pessoal ou até a própria vida?

Quando eu tinha idade suficiente para entender certas coisas, a minha mãe chamou-me à parte: “Filho quero ter uma conversa contigo. É sobre o teu pai! Esta caixa que seguro na minha mão contem cartas que o teu pai me escrevia quando ficava longe de nós para inspecionar as várias estações ferroviárias que tinha ao seu cargo. Gostaria que as lesses, e depois falamos está bem?”. Peguei na caixa, fui para o meu quarto, e comecei a ler. Mas antes disso fixei-me na caligrafia do meu pai, e fiquei fascinado por poder ter palavras escritas por ele. Era como se ele tivesse renascido, e voltasse a tê-lo ali tão perto de mim! Ele estava ali presente em cada palavra, em cada acento, em cada vírgula, em cada frase!  À medida que ia lendo, as lágrimas começaram a cair pela cara abaixo. As lágrimas que eu não fui capaz de chorar no dia cinzento em que ele morrera. Naquelas linhas estava expresso duma forma tão comovente o grandioso e sublime amor que ele tinha pela sua adorada esposa. Como era doloroso para ele estar tantas vezes e durante tanto tempo fora de casa, longe daqueles que mais amava! Em cada carta ele expressava insistentemente o desejo de sair dos caminhos-de-ferro, o quão infeliz se sentia com o seu cargo de inspetor, no  qual nada se revia minimamente, bem pelo contrário, detestava. Naquelas cartas ele rogava à minha mãe que intercedesse junto dos seus irmãos, para que lhe arranjassem um outro emprego, nem que fosse varrer ruas! O que ele mais queria era ficar junto da sua mulher e dos seus filhos, ter mais tempo para lhes dedicar e disfrutar da sua companhia. E os seus irmãos tinham poder para o fazer, porque ocupavam posições de influência nos seus empregos. Mas hesitaram em fazê-lo. Tempo demais… Mas como poderiam eles saber? Ah! Se soubessem teriam com certeza feito o possível e impossível para o arrancar de lá. Mas não sabiam! Não tinham como saber! À sua maneira sinceramente tentaram fazer aquilo que eles achavam ser o melhor pelo meu pai! Uma brilhante carreira profissional pela frente! Uma situação económica muito mais vantajosa e estável!! Não os culpo, nem os condeno! Amavam o meu pai tanto ou mais do que eu naquela altura em que mal o conhecia.

 

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