O amor pode ser visto de muitas formas - No tempo certo, ultrapassámos um oceano de barreiras guiados pelo que não se vê
No tempo certo, ultrapassámos um oceano de barreiras guiados pelo que não se vê
por Samuel Silva
Conhecemo-nos pela internet. Duas vidas separadas por um oceano, ligadas por conversas longas e uma sensação inexplicável de familiaridade. Eu já tinha problemas de saúde, a visão frágil, e muitos duvidaram que aquele encontro pudesse dar certo. Ainda assim, decidi ir ao Brasil para a conhecer. Não porque tudo estivesse seguro, mas porque tudo fazia sentido.
No primeiro beijo sentimos uma conexão inexplicável. Era como se nos conhecêssemos há anos, encaixando de forma natural e espontânea.
A viagem correu melhor do que alguma vez imaginei. Fui recebido pela família dela com abertura e carinho. E, curiosamente, muitos anos antes, a avó materna dizia que um estranho de longe viria buscar a filha. Na altura parecia apenas uma história; hoje, olhando para trás, sentimos que, de alguma forma, o destino se estava a cumprir.
Mantivemos a relação à distância. Videochamadas, rotinas adaptadas, dias bons e dias difíceis. No ano seguinte planeámos a vinda dela a Portugal. Pouco antes da viagem, a mãe adoeceu. Ninguém sabia o que tinha. A filha hesitou, mas a própria mãe deu-lhe força para seguir. Veio. A viagem correu bem. A doença desapareceu tão inexplicavelmente quanto surgiu.
Decidimos casar. Houve entraves burocráticos, esperas, incerteza. Nada simples. Mas tudo se resolveu no tempo certo. A minha família recebeu-a como parte de nós, e os pais dela fizeram questão de atravessar o oceano para estar presentes no casamento, celebrando connosco.
Depois do casamento, veio a fase mais dura. Trabalho instável, mudanças constantes, preconceito e intolerância. Ela sentia a falta da família e do Brasil todos os dias, mas manteve-se firme, ancorada na nossa relação e na esperança de construir um futuro juntos. Eu continuei a lutar com a saúde. A visão piorou, cirurgias, limitações. Tive de me reformar por invalidez. Ainda assim, nunca desistimos de formar família.
Adotámos o Snoopy. Ele chegou anos depois, como companhia silenciosa, quase a perceber os nossos medos. Tratámo-lo como filho, mas nunca confundimos isso com desistência. A vontade de ter um filho manteve-se.
Tentámos a fertilização in vitro. Foram anos de deslocações, consultas, noites em hotéis, cansaço extremo. Muitas vezes, ela saía do hospital e ia trabalhar no mesmo dia. Quando esgotámos todas as opções no hospital público, não desistimos. Batemos à porta de uma clínica privada. Não por teimosia, mas por sabermos que não podíamos deixar nada por tentar. Também aí não foi possível.
Quando já não havia planos, restou-nos confiar. Entregámos o que mais desejávamos a algo maior do que nós. E então, quando menos esperávamos, a gravidez aconteceu. De forma natural. Silenciosa. No tempo certo.
Hoje, a família que somos começou muito antes de o nosso filho nascer. Durante muito tempo aprendemos a viver com o que faltava. Hoje aprendemos a esperar pelo que vem. Esta não é apenas uma história de amor. É a história de dois que escolheram ficar. E isso, para nós, é amar.
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