O amor pode ser visto de muitas formas - Ritual das Sombras
Ritual das sombras
por Morticia (pseudónimo)
Longe do olhar do mundo, o Corvo habitava o limiar entre dois mundos: o educador que amparava os passos dos perdidos na "selva de pedra" dos homens e o guardião de um santuário de sombras. Foi nesse cenário de asfalto e nevoeiro que a vida lhe trouxe Morticia. Ele recorda-se do dia em que a avistou, envolta em trapos clássicos e enlameada pela chuva, lutando contra o peso de uma carga que as suas asas não pareciam suportar.
Ao ajudá-la, percebeu que a névoa nos olhos dela era, na verdade, um portal. Morticia não via o mundo, mas sentia as arestas da alma dele como ninguém ousara fazer. "Eu vejo com os olhos da alma e tateio o calor dos corações", dissera-lhe ela, entre risos e confidências sobre astrologia e botânica, para justificar o nome de bruxa que o destino lhe tatuara. O que começou como um auxílio fortuito transformou-se numa frequência que mais ninguém conseguia sintonizar.
Hoje, a escuridão da sala não é ausência; é uma presença densa, um palco de veludo onde os sentidos se aguçam. Na penumbra, onde apenas o calor das velas marca a geografia do espaço, o Corvo aguarda. Ele é um conjunto de texturas: o frio da prata nos dedos e o aroma a sândalo que se desprende do cabedal negro.
O ar denuncia-a antes do primeiro passo. Morticia não precisa de luz; ela traz consigo a sabedoria de quem decifra o silêncio. Avança sem hesitação, acompanhada pelo clique discreto de um arnês que, por agora, deixa de ser guia para se tornar guarda. Fenrir, a sua sombra fiel de olhos âmbar, funde-se com os cantos escuros, permanecendo como uma presença vigilante na periferia.
O ritual começa. O som dos tambores de pele, ancestrais e cavos, invade o chão como um feitiço viking. É uma música que se bebe com os poros. O Corvo serve o hidromel em canecas de cerâmica pesada.
— "Estás inquieto, meu adorável Corvo," — murmura ela, a voz cortando o ar como uma lâmina de seda.
Ela ergue a caneca e o aroma a mel silvestre inebria-a. O hidromel desce como fogo líquido, desfazendo qualquer resto de prudência. Morticia estende a mão e os seus dedos, treinados na mais fina das leituras, tateiam-lhe o peito. Ela não vê a cor do seu traje, mas sente a alma da matéria: o toque rugoso do casaco, o pulsar do coração e o calor da pele que se arrepia ao seu contacto.
O suspense paira, espesso. O Corvo envolve-a com a sua asa negra, um jogo de forças onde ela, na sua aparente cegueira, detém o comando absoluto. Entre o bater dos tambores e o rasto doce do néctar, os dois predadores de sombras fundem-se numa melodia que o resto do mundo jamais poderá escutar.
Onde a visão termina, começa a verdade deles: um incêndio sensorial que consome o silêncio, provando que, neste mistério viking, ninguém precisa de olhos para deixar de estar sozinho.
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