O amor pode ser visto de muitas formas - Ver com o Coração, Caminhar com Amor
Ver com o Coração, Caminhar com Amor
por Rafael Simões
Nasci sem ver. Não foi algo que perdi, foi algo que nunca tive. Para mim, o mundo sempre começou nos sons, nos cheiros, nas texturas e nas vozes. Enquanto outras crianças aprendiam cores, eu aprendia distâncias pelo eco dos passos e reconhecia pessoas pela forma como respiravam ao falar. A cegueira nunca foi o fim de nada; foi apenas o princípio de uma forma diferente de estar na vida.
Os primeiros anos foram feitos de aprendizagem constante. Aprendi a reconhecer a casa pelo som das portas, a distinguir divisões pelo cheiro, a saber se alguém estava triste ou contente apenas pela maneira como dizia o meu nome. as crianças cegas criam mapas mentais muito cedo, porque precisam de compreender o espaço sem o ver. Cada canto da casa era decorado na memória, cada degrau contado.
Na infância, aprendi cedo que o mundo não estava preparado para mim. Nas escolas, muitas vezes não havia livros adaptados, e os manuais em braille chegavam tarde ou não chegavam de todo. Enquanto os outros miúdos corriam sem pensar, eu era constantemente chamado à atenção: “tem cuidado”, “não vás por aí”, “espera”. A superproteção é uma das primeiras barreiras impostas a uma criança cega. Não por maldade, mas por medo.
Esse medo acabava por ensinar-me duas coisas: paciência e resistência. Esperar pelos outros tornou-se hábito, mas dentro de mim crescia a vontade de fazer sozinho. Cada pequena conquista — ir sozinho à casa de banho da escola, atravessar um corredor sem ajuda, encontrar a sala certa — era uma vitória silenciosa que ninguém via, mas que eu sentia por inteiro.
Brincava de outra forma. Jogava à bola pelo som de guizos improvisados, inventava jogos de palavras, memorizava caminhos dentro de casa para não depender sempre de alguém. Caí muitas vezes. Magoei-me. Aprendi que cair não é sinal de incapacidade, é parte do processo de autonomia. Aprendi também que o ouvido e o tacto se tornam mais atentos, não por magia, mas por necessidade.
Houve momentos difíceis, como quando percebi que não podia ler os quadros na sala de aula nem reconhecer os colegas no recreio. Tive de aprender a decorar vozes e passos, a adivinhar estados de espírito pelo tom com que me falavam. As crianças cegas desenvolvem uma atenção emocional precoce, porque precisam de interpretar o mundo sem expressões faciais.
Essa atenção acompanhou-me pela vida fora. Aprendi a perceber quando alguém estava a mentir, quando se afastava aos poucos, quando a paciência se transformava em pena. Aprendi também que nem todas as ausências são físicas; algumas são emocionais, e essas doem mais.
Cresci a ouvir que era “coitadinho”, palavra que nunca me serviu. Aprendi cedo a usar a bengala branca, não como sinal de fraqueza, mas como ferramenta de autonomia. Aprendi braille, orientação e mobilidade, e, sobretudo, aprendi a pedir ajuda sem vergonha — algo que muitos que veem nunca conseguem fazer. A maior barreira da cegueira não é a falta de visão, é a falta de acessibilidade e de compreensão.
A adolescência foi uma fase de conflito interno. Queria independência, queria experimentar o mundo, mas nem sempre me deixavam. Houve discussões, frustrações, silêncios longos. Muitos jovens cegos sentem que têm de lutar duas vezes — contra a deficiência e contra a desconfiança de quem os ama.
Na vida adulta, antes de a conhecer, enfrentei a solidão silenciosa que muitos cegos conhecem bem. Não por falta de pessoas à volta, mas por falta de quem realmente queira compreender. Trabalhei, lutei por oportunidades, provei vezes sem conta que a cegueira não define competência. Ainda assim, ouvi “não estamos preparados”, “talvez mais tarde”, “é complicado”. O desemprego entre pessoas cegas continua a ser significativamente mais elevado do que na população geral.
Essa instabilidade trouxe medo, mas também resiliência. Aprendi a não desistir à primeira porta fechada, a adaptar-me, a reinventar-me. A vida adulta de uma pessoa cega é feita de adaptações constantes, muitas invisíveis para quem vê.
Aprendi a viver sozinho, a cozinhar contando passos e tempos, a identificar notas e moedas pelo toque, a usar tecnologias de apoio como leitores de ecrã para trabalhar, comunicar e existir no mundo digital. A tecnologia tornou-se uma extensão da minha independência, mas nem tudo é acessível. Aplicações mal feitas, caixas multibanco sem áudio, transportes públicos sem avisos sonoros — obstáculos diários que não aparecem nas estatísticas.
Houve relações falhadas antes dela. Pessoas que gostavam da ideia de mim, mas não da realidade. Que diziam aceitar a cegueira, mas se cansavam das adaptações, dos pedidos de descrição, da necessidade de paciência. Muitos relacionamentos com pessoas cegas terminam não por falta de amor, mas por falta de compreensão prática.
Foi já adulto que a conheci.
Não a vi entrar na minha vida. Ouvi-a. A voz dela tinha uma calma rara, dessas que não se ensinam. Falava devagar, como quem sabe ouvir. No início, tratava-me como pessoa, não como deficiência. Isso, para quem é cego, é um gesto de amor silencioso. Não me pegava no braço sem perguntar, não empurrava decisões, não falava por mim. Caminhava ao meu lado.
Apaixonei-me antes de perceber que estava apaixonado.
Apaixonei-me na forma como ela me descrevia o mundo sem exageros, sem pena. Dizia-me que o céu estava limpo, não “lindo como nunca viste”. Dizia-me que sorria quando achava graça a algo, e eu sabia, pelo silêncio que vinha a seguir, que era um sorriso verdadeiro. O amor, descobri, não precisa de olhos — precisa de presença.
Com ela, comecei a sentir algo novo: tranquilidade. Não a ausência de dificuldades, mas a certeza de que não estava sozinho nelas. Para muitas pessoas cegas, o amor saudável é aquele que respeita a autonomia sem abandonar o cuidado.
Houve medos, claro. A cegueira traz consigo inseguranças reais. Perguntei-me muitas vezes se seria um peso, se a minha autonomia seria suficiente, se o mundo seria justo connosco. A verdade é esta: ser cego não me impede de amar, mas obriga-me a amar com coragem. Porque amar, para mim, é confiar mais do que ver.
Mesmo com ela ao meu lado, as dificuldades do dia a dia não desapareceram. Continuo a tropeçar em passeios mal sinalizados, em obras sem aviso, em portas de vidro invisíveis para quem não vê. Continuo a depender de descrições em restaurantes, de ajuda em lugares novos, de paciência quando algo simples para outros exige estratégia para mim. O amor não elimina a deficiência, mas pode torná-la mais leve de carregar.
Há dias em que o cansaço fala mais alto. Dias em que sinto vontade de desistir de sair, de explicar, de justificar. Nesses dias, a presença dela não resolve o mundo, mas devolve-me forças para enfrentá-lo novamente.
Ela não me “guia” pela vida. Caminhamos juntos. Às vezes sou eu quem pede apoio, outras vezes sou eu quem sustém. Há dias em que o cansaço de explicar, de justificar, de provar que sou capaz pesa mais do que a cegueira em si. Nesses dias, o amor manifesta-se em gestos pequenos: esperar sem apressar, avisar sem mandar, estar sem invadir.
Beijei-a pela primeira vez guiado pelas mãos dela no meu rosto. Não precisei de saber como era o seu sorriso; senti-o na forma como o beijo demorou. Pessoas cegas constroem imagens emocionais, não visuais. Eu sei exatamente como ela é — não por fora, mas por dentro. E isso nunca muda com a luz.
Hoje continuo cego. Continuo a tropeçar em passeios mal feitos, em portas de vidro sem marcação, em olhares que não vejo mas sinto. Mas também continuo a amar. A cegueira não me tirou a capacidade de sonhar um futuro a dois, de partilhar rotinas, de discutir, de rir, de fazer planos.
Sonho com uma vida simples: acordar juntos, ouvir a casa acordar, sair para o mundo de mão dada, mesmo quando o mundo insiste em ser difícil. Para quem é cego, cada dia vivido com dignidade é um ato de resistência.
Não vejo o rosto da mulher que amo.
Mas reconheço-a em cada silêncio confortável, em cada passo que abranda para caminhar comigo, em cada “estou aqui”.
E isso, posso garantir, é ver mais do que muitos que têm olhos.
A partir daí, a vida não se tornou subitamente fácil. O amor não fez desaparecer a cegueira nem corrigiu as falhas do mundo. Continuo a acordar todos os dias com a necessidade de planear mais do que a maioria das pessoas. Cada saída exige antecipação: saber se o passeio está em obras, se o transporte tem aviso sonoro, se o local é novo ou já faz parte do meu mapa mental. A improvisação é um luxo raro para quem não vê.
Há dias em que caminhamos juntos pela cidade e sinto os olhares pousados em nós. Não os vejo, mas percebo-os no silêncio repentino, na mudança do tom das conversas à nossa volta. Uns admiram, outros questionam, alguns julgam. Já ouvi perguntas feitas a ela como se eu não estivesse ali. A invisibilidade social acompanha muitas pessoas cegas, mesmo quando estão fisicamente presentes.
Ela aprendeu, com o tempo, a não responder por mim. Aprendeu que ajudar não é substituir, é respeitar o tempo e o espaço do outro. Às vezes deixa-me errar o caminho, tropeçar numa decisão, porque sabe que isso também é viver. Esse equilíbrio não se aprende nos livros; constrói-se com escuta e confiança.
Em casa, dividimos rotinas como qualquer casal. Cozinho à minha maneira, organizo os objetos sempre no mesmo sítio, reconheço os alimentos pelo cheiro e pelo tacto. A organização é uma forma de visão alternativa. Quando algo muda de lugar sem aviso, o mundo desarruma-se por instantes. Nessas alturas, respiro fundo e recomeço.
Há noites em que falamos do futuro. Não falo de cores, mas de sons: a casa cheia de vozes, a música que toca ao fundo, o riso partilhado. Falo de viagens sentidas pelo cheiro do mar, pelo som das ruas, pelo calor do sol na pele. As pessoas cegas viajam tanto quanto as outras — apenas guardam memórias diferentes.
Também existem dias difíceis entre nós. Discussões, cansaços, frustrações. Há momentos em que a minha dependência pontual pesa, e outros em que a exaustão de ser sempre forte me deixa em silêncio. O amor verdadeiro não é ausência de conflito; é a capacidade de ficar mesmo quando é mais fácil ir.
Com o tempo, percebi algo importante: não sou amado apesar da cegueira, nem por causa dela. Sou amado como sou. E isso mudou a forma como me vejo ao espelho que nunca usei. A autoimagem de uma pessoa cega constrói-se através do olhar dos outros, mas solidifica-se quando esse olhar é honesto.
Continuo a lutar por acessibilidade, por respeito, por autonomia. Continuo a explicar, a corrigir, a ensinar. Mas já não carrego tudo sozinho. Há uma mão que não me puxa nem me empurra — apenas acompanha.
Não sei como será o amanhã. Não o vejo, como nunca vi. Mas sei como soa a esperança quando se constrói a dois. Sei como se sente a segurança de uma presença constante. Sei que, mesmo na escuridão, há caminhos que se fazem com o coração atento.
E enquanto houver passos que abranda para caminhar comigo, vozes que dizem “estou aqui” sem pena nem pressa, continuarei a avançar.
Porque eu não vejo o mundo.
Mas vivo nele.
E amo dentro dele.
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